Ao refletir
sobre a cruel perseguição sofrida pelas rádios alternativas;
Ao refletir
sobre a omissão do governo federal
em colocar uma nova lei para dar fim a essa tensão latente entre o povo e o
governo
Ao refletir sobre a relação que
existe entre a rádio comunitária, o forró, a cultura nordestina e o povo
nordestino, eu cheguei a conclusão de que os nossos problemas com a LGT, a Anatel, a polícia federal, e as
grandes emissoras de rádio e televisão, vão muito alem do uso ilegal, ou
“contra a lei” de transmissores
não-homologados, e muito acima de 25 Watts permitidos.
Ventilou-se até o boato que a caça ás comunitárias era um movimento
de “grupos secretos” que tentam impedir os evangélicos, ou “crentes” mais
tradicionais, de ter acesso aos meios de comunicação de massa.
Talvez
seja, ao menos em parte porém a verdadeira causa dessa “caça ás comunitárias alternativas”, é de ordem ideológica, que procura atingir de forma direta e “legal” os povos tribalistas do Brasil, e as suas
,manifestações culturais.
É uma perseguição
sem fim.
Um problema
que parece nunca chegar ao fim.
Que parece
sem solução, por causa das grandes corporações de telecomunicações e seus
interesses: a futebolização da nossa sociedade, e a despatriotização do nosso
povo.
E a
popularização da nossa música e cultura.
Um paradoxal
problema da nossa democracia, e para as nossas tradições culturais folclóricas.
Uma questão
que envolve anseios de uma parte da população, que pede a legalização de suas
emissoras não-homologadas, de um lado, e de outro, o governo federal e a lei
federal que impede que essa mesma população possa ter o direito de lutar por
seus objetivos: objetivos culturais, e patrióticos de manifestar as nossas
culturas.
Nós, os
trabalhadores das rádios comunitárias, vivemos sob um cruciante dilema:
O conflito com a lei geral de
telecomunicações (e somente essa lei).
Se aceitarmos “cumprir a lei”, sem
questioná-la, sem reivindicar mudanças na lei, sem a nossa luta de buscar junto
ao povo e as autoridades a consciência e o apoio para a nossa causa, as rádios comunitárias alternativas
tradicionais, como são conhecidas pelo povo, deixarão de existir.
É o mesmo
que por um passe de mágica, (ou por lei)
deixar de existir elementos tradicionais que fazem parte da nossa cultura como
o radioamadorismo, os pequenos jornais, os “carros de som”, os “salões de
baile”, as escolas de samba, os canais de TV por assinatura, e outros valores
culturais da nossa sociedade.
Se
houvessem somente “emissoras homologadas” na forma como nos foi oferecida, mais da metade da população brasileira,
jamais saberia o que é “rádio comunitária”.
Nos meus
mais de 15 anos de envolvimento direto (como locutor), ou indireto (como
ouvinte) com as rádios comunitárias, eu só conheci duas emissoras homologadas funcionando por mais de seis meses, com sua
programação normal, seus locutores etc., isso porque eram ligadas a
instituições católicas, que as mantinha.
Se não houvesse idealistas corajosos – que por causa da tirania da lei
das telecomunicações que só contempla, defende e beneficia as grandes emissoras
– que montam suas rádios alternativas,
jamais teriam surgido emissoras como Terra
FM, Ativa FM, Mais FM, Alternativa FM, Conquista FM, Transpaulista FM, União
FM, Cristal FM, Nova São Paulo FM, Delta FM, Divisa FM, Remexe FM, Sol FM, Abas
FM, e milhares e milhares de outras rádios comunitárias espalhadas por
todo o país, trabalhando com forró, com o samba, com a música sertaneja, com o
RAP, com o frevo, carimbó, vaneirão, com a religião católica, evangélica, candomblecista,
etc., promovendo a arte, a música, a religião, a cultura, o bem-estar social,
de suas cidades e comunidades. Emissoras que ousam ou ousaram ter sua própria
versão da historia e da comunidade.
Á espera
que um dia, a polícia federal e a polícia civil invadam suas instalações, tomem
seus equipamentos, intimidem seus locutores, lacrem suas portas, e deixem seus
funcionários desempregados e seus locutores também desempregados e sem poder
honrar seus compromissos com seus patrocinadores, seus artistas, e com seus
ouvintes.
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